Até que ponto a história
corresponde à realidade e em que momento o homem começa a
preencher as lacunas trabalhando com a imaginação os
fragmentos de fatos narrados por seus antepassados?
Quando se fala de história, quanto mais remoto o período,
mais nebulosos se tornam os acontecimentos, mas acho que
podemos dizer que a história do vinho se confunde com a do
homem civilizado.
A civilização nasce no período Neolítico, com a agricultura,
tão logo os primeiros nômades que semearam grãos são
obrigados a se instalar para esperar a colheita. Como a
videira necessita de pelo menos quatro anos para dar seus
frutos, o período em que ela começa a ser cultivada
corresponde à época de transição social, quando os homens
aos poucos abandonam a vida nômade para se fixar em
determinados sítios, pois de outra forma não estariam
presentes para colher a uva quando a videira começasse a
produzir.
O vinho, sem dúvida, originou-se no Oriente, na região do
Cáucaso onde hoje se encontram a Geórgia e a Armênia, cerca
de 7 000 anos a.C., espalhando-se depois para a Mesopotâmia,
Síria, Palestina e Egito. Via Chipre e Creta, as parreiras
conheceram a Europa; primeiro a Grécia, onde a
vitivinicultura conheceu grande desenvolvimento, cabendo aos
gregos difundi-la por todo o Mediterrâneo, depois pela
Itália, pela França e por outros países mais. (Veja o Mapa)
Como tantas outras descobertas que o acaso permitiu ao
homem, o vinho provavelmente foi fruto do esquecimento de
algumas uvas em um recipiente, resultando numa fermentação
natural e fazendo com que seu doce líquido se transformasse
em álcool, álcool vínico. E os homens, mesmo sem entender
como tinha surgido, perceberam que isso era bom e passaram a
bebê-lo.
À medida que a inteligência do homem se desenvolve, ele
começa a perceber a existência de fenômenos sobre os quais
não tem controle e, sem saber explicá-los, atribui sua
ocorrência a entidades superiores, os deuses. Para
agradá-los, criam rituais de celebração, e o vinho segue os
passos das diversas religiões que vão se formando e se
transformando no correr da história.
Segundo a tradição judaica transcrita no Pentateuco, a
parreira teria sido a primeira planta cultivada por Noé
depois do Dilúvio, e em seguida há a descrição de como ele
bebeu o vinho e apareceu nu em sua tenda, numa alusão à
bebedeira tomada por personagem tão ilustre. Coincidência ou
não, a arca de Noé parou nas "montanhas do Ararat", num
ponto entre a Turquia e Armênia atuais, reforçando a teoria
que o vinho surgiu no Cáucaso, mesmo que se considere lenda
a história de Noé.
Anterior ao Livro de Gênesis, a epopéia babilônica de
Gilgamesh, escrita por volta de 1 800 a.C., mas se
referindo a uma época bem mais remota, conta a história de
Upnapishtim, que seria a versão original da história do
Dilúvio, só que esse herói não faz vinho. A citação à bebida
está num outro trecho do poema em que se relata a entrada de
Gilgamesh nos domínios do sol, onde ele descobre a
existência de um vinho extraído de um vinhedo encantado que
lhe garantiria a imortalidade, se ele conseguisse bebê-lo.
Talvez a lenda sobre o vinho que mais nos interesse seja a
persa, relatada por Omar Khayyam – Jamsheed era um rei persa
em cuja corte as uvas eram conservadas em jarros para que
pudessem ser comidas fora da estação. Certa ocasião, um dos
jarros começou a exalar um cheiro estranho, e as uvas nele
contidas espumavam, por isso o jarro foi posto de lado para
que ninguém se envenenasse. Uma jovem do harém, sofrendo
dores de cabeça terríveis, resolveu suicidar-se bebendo o
"veneno", só que, em vez de provocar sua morte, a beberagem
lhe trouxe paz e um sono que lhe devolveu as forças. O rei,
depois de ouvir a história da jovem, mandou que se fizesse
uma quantidade maior de vinho, para que ele e sua corte
pudessem tomá-lo.
No Egito, Osíris, o deus da vida após a morte, era o patrono
da vinha, e os egípcios não só bebiam o vinho como o usavam
para purificar o altar e a vítima nos sacrifícios
religiosos. Além disso, jarras de vinho faziam parte dos
tesouros que deveriam acompanhar as múmias reais em sua
última viagem. Na tumba de Tutancâmon foram encontradas 36
ânforas, sendo que em 33 delas consta o nome do
vinhateiro-chefe e 26 são "rotuladas", trazendo informações
diversas, como a origem, a idade ou a classificação
("doces", "novos" ou "de ótima qualidade").
Na Grécia, Dioniso, ou Dionísio como querem alguns, o deus
do vinho, da colheita e da fertilidade, a princípio foi
repudiado pela aristocracia, que não considerava a
embriaguez dentro de seus padrões estéticos, mas acabou
integrado ao panteão dos deuses gregos, tal sua importância
junto ao povo. O ritual dionisíaco, muitas vezes agitado
pelo consumo excessivo do vinho, tinha um aspecto mais
grandioso em determinadas épocas do ano quando se fazia a
representação da vida do deus, o que, com o passar do tempo,
deu origem ao teatro grego.
A arte na cerâmica foi outro ramo que ganhou vitalidade com
o vinho, já que ele era conservado e transportado em
ânforas, valorizadas pelo formato e pela pintura aplicada a
elas.
Quanto ao valor gustativo do vinho grego da época, temos
nossas dúvidas... Pelo que se deduz, ele era um rosado
excessivamente doce, provavelmente com um ligeiro toque de
resina, tão concentrado que precisava ser agitado antes de
ser bebido.
"Vita vinum est" (Vinho é vida) – são as
palavras que Petrônio põe na boca de um dos personagens de
sua obra Satyricon. Tanto para os pobres quanto para
os ricos, o vinho era um gênero de primeira necessidade em
Roma. O vinho romano já conta com propriedades excepcionais
para sua conservação, e é guardado não só em ânforas, mas
também em tonéis e garrafas. Na época de Augusto (27 a.C. a
14 d. C.) ainda se apreciava o vinho doce e forte, muitas
vezes submetido a um processo de "cozimento" como o nosso
atual Madeira. Acrescentava-se muitas vezes água salgada
durante a fermentação para realçar a maciez do vinho e para
evitar o gosto de bolor. Já por volta de 169 d.C., os vinhos
especiais continuavam sendo os brancos, mas bebia-se vinho
tinto no dia-a-dia romano.
Dioniso é adotado pelos romanos com o nome de Baco (como
Dioniso era conhecido na Lídia). As bacanais eram a
celebração de seu culto e tinham um caráter orgíaco e
delirante, marcado principalmente pelas bacantes que,
vestidas apenas com peles de leão, executavam danças
frenéticas. Quanto às demais mulheres, a informação que
temos é que, nos primórdios de Roma, eram proibidas de beber
vinho porque a produção era escassa, havendo a permissão de
que fossem beijadas pelos guardiães para verificar se haviam
ou não transgredido a lei...
Na tradição cristã, o vinho assume um papel mais sóbrio e
metafórico, passando a representar o sangue do Cristo, filho
de Deus, no decorrer da celebração da missa. Por isso, as
vinhas começam a ser cultivadas com finalidades litúrgicas
nos monastérios e abadias que, com o tempo, se tornam
grandes produtores de bons vinhos.
Paralelamente ao papel que representou e representa na mesa,
na religião e na economia dos povos, o vinho é hoje indicado
pelos médicos como uma bebida salutar, o que não é nenhuma
novidade, pois Dioscórides, o pai da farmacologia, no século
I da nossa era, e Hipócrates de Cós, o pai da medicina,
quatro séculos antes, já mencionavam seu papel como
medicamento.