
O VINHO (arquivo PPS)
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Introdução
O princípio da criação
No princípio Deus criou a uva e o vinho.
E o suco mostrava-se doce e não alcoólico, e as pequenas leveduras moviam-se por cima da superfície do suco.
E Deus passou a dizer, que venha a haver fermentação, e viu pois que a fermentação era boa, e fez então separação entre suco e mosto para vinho. Primeiro dia.
E Deus prosseguiu dizendo, que venha a haver cascas sobre o mosto, e que estes liberem cor. E assim se deu . Segundo dia.
E Deus prosseguiu dizendo. Ajuntem-se por baixo das cascas gás carbônico e temperaturas elevadas, e assim se deu. Terceiro dia.
E Deus prosseguiu dizendo, que venha a haver taninos e também aromas, e que estes aumentem a cada dia, para dar prazer ao homem e durabilidade ao vinho. E veio a ser dia e veio a ser noite. Quarto dia.
E Deus prosseguiu dizendo, que com a fermentação que se produzam os polifenois, e que se destaque entre eles, o álcool etílico, para dar alegria ao coração do homem. Quinto dia.
E Deus passou a dizer, haja ainda a separação entre vinho fino e de garrafão, para que ninguém ao beber o vinho fino diga que ele é rascante ou docinho, e venha a haver discórdia na Terra. Sexto dia.
E no sétimo dia, Deus descansou e viu tudo o que tinha feito, e viu que era muito bom, pois havia produzido a bebida mais higiênica e saudável do mundo, mas percebeu que o homem ainda estava triste e deu-lhe uma companheira e ajudadora para esvaziar cada garrafa, e o homem foi feliz, até que decidiu afastar-se de Deus, da esposa, dos amigos enófilos e enveredou-se para a solidão, para a nostalgia, e para os destilados.
De Nei Passos – Sommelier.
Uma reflexão !
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Escavações
em Catal Hüyük (talvez a primeira das cidades da humanidade) na
Turquia, em Damasco na Síria, Byblos no Líbano e na Jordânia
revelaram sementes de uvas da Idade da Pedra (Período Neolítico
B), cerca de 8.000 a.C. As mais antigas sementes de uvas cultivadas
foram descobertas na Georgia (Rússia) e datam de 7.000 - 5.000 a.C.
(datadas por marcação de carbono). Certas características da
forma são peculiares a uvas cultivadas e as sementes descobertas
são do tipo de transição entre a selvagem e a cultivada.
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Não
se pode apontar precisamente o local a época em que o vinho
foi feito pela primeira vez, do mesmo modo que não sabemos
quem foi o inventor da roda. Uma pedra que rola é um tipo
de roda; um cacho de uvas caído, potencialmente, torna-se,
um tipo de vinho. O vinho não teve que esperar para ser
inventado: ele estava lá, onde quer que uvas fossem
colhidas e armazenadas em um recipiente que pudesse reter
seu suco.
Há
2 milhões de anos já coexistiam as uvas e o homem que as
podia colher. Seria, portanto, estranho se o
"acidente" do vinho nunca tivesse acontecido ao
homem nômade primitivo. Antes da última Era Glacial houve
seres humanos cujas mentes estavam longe de ser primitivas
como os povos Cro-Magnon que pintaram obras primas nas
cavernas de Lascaux, na França, onde os vinhedos ainda
crescem selvagem. Esses fatos fazem supor que, mesmo não
existindo evidências claras, esses povos conheceram o
vinho.
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Os
arqueologistas aceitam acúmulo de sementes de uva como
evidência (pelo menos de probabilidade) de elaboração de
vinhos.
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A
videira para vinificação pertence a espécie Vitis vinifera
e suas parentes são a Vitis rupestris, a Vitis riparia e
a Vitis aestivalis, mas nenhuma delas possui a mesma capacidade
de acumular açúcar na proporção de 1/3 do seu volume, nem os
elementos necessários para a confecção do vinho. A videira selvagem
possui flores machos e fêmeas, mas raramente ambas na mesma planta. A
minoria das plantas são hermafroditas e podem gerar uvas, mas quase a
metade do número produzido pelas fêmeas. Os primeiros povos a cultivar
a videira teriam selecionado as plantas hermafroditas para o cultivo. A
forma selvagem pertence a subespécie sylvestris e a cultivada à
subespécie sativa.
As
sementes encontradas na Georgia foram classificadas como Vitis
vinifera variedade sativa, o que serve de base para o
argumento de que as uvas eram cultivadas e o vinho presumivelmente
elaborado. A idade dessas coincide com a passagem das culturas
avançadas da Europa e do Oriente Próximo de uma vida nômade para uma
vida sedentária, começando a cultivar tanto quanto caçavam. Nesse
período começam também a surgir, além da pedra, utensílios de cobre
e as primeiras cerâmicas nas margens do Mar Cáspio.
O
kwervri (um jarro de argila), existente no museu de Tbilisi, na
Georgia, datado de 5.000 - 6.000 a.C, é outra evidência desse
período. No mesmo museu existem pequenos segmentos e galhos de
videiras, datadas de 3.000 a.C., e que parecem ter sido parte dos
adornos de sepultamento, talvez com significado místico de serem
transportadas para o mundo da morte onde poderia ser plantada e dar
novamente prazer.
Além
das regiões ao norte dos Cáucasos (Georgia e Armênia), a videira
também era nativa na maioria das regiões mais ao sul, existindo na
Anatólia (Turquia), na Pérsia (Irã) e no sul da Mesopotâmia
(Iraque), nas montanhas de Zagros, entre o Mar Cáspio e o Golfo
Pérsico. É possível que as videiras da região dos cáucasos, tenham
sido levadas pelos fenícios da região onde hoje é o Líbano para toda
a Europa e seriam as ancestrais de várias das atuais uvas brancas.
Recentemente, foi encontrada no Irã (Pérsia), uma ânfora de 3.500
anos e contendo no seu interior, uma mancha residual de vinho.
É
provável que o Egito recebia suas videiras, pelo rio Nilo, de Canaã
(Líbano, Israel, Jordânia e parte da Síria) ou da Assíria (Parte do
Iraque e da Arábia Saudita) ou, ainda da região montanhosa da Núbia
ou da costa norte da África.
Há
inúmeras lendas sobre onde teria começado a produção de vinhos e a
primeira delas está no Velho Testamento. O capítulo 9 do Gênesis diz
que Noé, após ter desembarcado os animais, plantou um vinhedo do qual
fez vinho, bebeu e se embriagou. Entre outros aspectos interessantes
sobre a história de Noé, está o Monte Ararat, onde a Arca ancorou
durante o dilúvio. Essa montanha de 5.166 metros de altura é o ápice
dos cáucasos e fica entre a Armênia e a Turquia. Entre as muitas
expedições que subiram o monte a procura dos restos da Arca, apenas
uma, em 1951, encontrou uma peça de madeira.
A
questão mais complicada é onde morou Noé antes do dilúvio. Onde quer
que ele tenha construído a Arca, ele tinha vinhedos e já sabia fazer o
vinho. As videiras, logicamente faziam parte da carga da Arca. Uma
especulação interessante é que Noé teria sido um dos muitos
sobreviventes da submersão de Atlântida. Uma lenda basca celebra um
herói chamado Ano que teria trazido a videira e outras plantas num
barco. Curiosamente, o basco é uma das mais antigas línguas ocidentais
e "ano" , em basco, também significa vinho. Na Galícia
também existe uma figura legendária denominada Noya que os sumérios
da Mesopotâmia diziam ser uma espécie de deus do mar denominado Oannes.
Também interessante é que, na mitologia grega, Dionísio, deus do
vinho, foi criado por sua tia Ino, uma deusa do mar, e a palavra grega
para vinho é "oinos".
O
épico babilônico Gilgamesh, o mais antigo trabalho literário
conhecido (1.800 a.C.) conta também uma história de Upnapishtim,
a versão babilônica de Noé. Esse homem também construiu uma Arca,
encheu-a de animais, atracou-a numa montanha, soltou sucessivamente
três pássaros sobre as águas e finalmente sacrificou um animal em
oferenda aos deuses. No entanto, Upnapishtim não fez vinho. O vinho
aparece em outra parte dos escritos, na qual o herói Gilgamesh entra no
reino do sol e lá encontra um vinhedo encantado de cujo vinho obteria,
se lhe fosse permitido bebê-lo, a imortalidade que ele procurava.
O
vinho está relacionado à mitologia grega. Um dos vários significados
do Festival de Dionísio em Atenas era a comemoração do grande
dilúvio com que Zeus (Júpiter) castigou o pecado da raça humana
primitiva. Apenas um casal sobreviveu. Seus filhos eram: Orestheus, que
teria plantado a primeira vinha; Amphictyon, de quem Dionísio era amigo
e ensinou sobre vinho; e Helena, a primogênita, de cujo nome veio o
nome da raça grega.
A
mais citada de todas as lendas sobre a descoberta do vinho é uma
versão persa que fala sobre Jamshid , um rei persa semi-mitológico que
parece estar relacionado a Noé, pois teria construído um grande muro
para salvar os animais do dilúvio. Na corte de Jamshid, as uvas eram
mantidas em jarras para serem comidas fora da estação. Certa vez, uma
das jarras estava cheia de suco e as uvas espumavam e exalavam um cheiro
estranho sendo deixadas de lado por serem inapropriadas para comer e
consideradas possível veneno. Uma donzela do harém tentou se matar
ingerindo o possível veneno. Ao invés da morte ela encontrou alegria e
um repousante sono. Ela narrou o ocorrido ao rei que ordenou, então,
que uma grande quantidade de vinho fosse feita e Jamshid e sua corte
beberam da nova bebida.
Os
mesopotâmios também eram bebedores de vinho. A Mesopotâmia (Iraque)
está situada entre os rios Tigre e Eufrates que correm ao sul dos
Cáucasos (o Eufrates nasce no Monte Ararat) e correm até o Golfo
Pérsico, numa região plana, quente e árida, uma antítese da região
adequada para vitivinicultura. Os sumérios aí se estabeleceram entre
4.000 a 3.000 a.C. e fundaram as cidades de Kish e Ur. De Kish provém
as primeiras forma de escrita, os pictogramas, desenhados com estilete
em argila úmida. Entre estes escritos há uma folha de uva. Os
mesopotâmios tentaram mais tardiamente o plantio de videiras, mas,
originalmente, importavam o vinho de outras regiões. Há registros de
que dois séculos e meio depois o rio Eufrates foi usado para transporte
de vinho da região da Armênia para Babilônia, a cidade que sucedeu
Kish e Ur.
Na
Mesopotâmia os sumérios originaram os semitas e Mari foi sua principal
cidade, até que o Imperador Hammurabi fundou Babilônia (próxima de
Bagdá) em 1.790 a.C.
Os
hititas que ocuparam por volta de 2.000 a.C. a região da Anatolia
(Turquia) parecem ter sido entusiastas do vinho, julgando-se pela
exuberância dos frascos criados para servir e tomar o vinho (cálices e
frascos em forma de cabeça de animal feitos em ouro).
A
propósito, o código de Hammurabi e o código dos hititas são os dois
primeiros livros sobre leis de que temos conhecimento e ambos fazem
referência aos vinhos. No código de Hammurabi há três tópicos
relacionados com as "casas de vinho". O primeiro diz que
"a vendedora de vinhos que errar a conta será atirada à
água"; o segundo afirma que "se a vendedora não prender
marginais que estiverem tramando e os levar ao palácio seria punida com
a morte"; a última diz que " se uma sacerdote abrir uma casa
de vinhos ou nela entrar para tomar um drinque, será queimada
viva".
Havia
um grande intercâmbio comercial, incluindo-se aí a uva e o vinho,
entre os impérios peri-mediterrâneos. Ugarit (agora Latakia) e Al-Mina,
na Síria, e, posteriormente, Sidon e Tyre, mais ao sul, foram
importantes portos comerciais e eram controlados pelos Cananeus a
serviço do Império Assírio. Nessa região da costa mediterrânea, os
fenícios, que sucederam os Cananeus e inventaram o alfabeto, fundaram
outras cidades comerciais como Cartago e Cádiz. Alexandre o Grande
conquistou toda a região e fundou Alexandria, um porto neutro no delta
do Nilo, habitado por gregos, egípcios e judeus.
Os
egípcios não foram os primeiros a fazer vinho, mas certamente foram os
primeiros a saber como registrar e celebrar os detalhes da
vinificação em suas pinturas que datam de 1.000 a 3.000 a.C. Haviam,
inclusive, expertos que diferenciavam as qualidades dos vinhos
profissionalmente. Nas tumbas dos faraós foram encontradas pinturas
retratando com detalhes, várias etapas da elaboração do vinho, tais
como: a colheita da uva, a prensagem e a fermentação. Também são
vistas cenas mostrando como os vinhos eram bebidos: em taças ou em
jarras, através de canudos, em um ambiente festivo, elegante, algumas
vezes, licencioso. O consumo de vinho parece ter sido limitados aos
ricos, nobres e sacerdotes. Os vinhedos e o vinho eram oferecidos ao
deuses, especialmente pelos faraós, como mostram os registros do
presente que Ramses III (1.100 a.C.) fez ao deus Amun.
Um
fato muito interessante e que mostra o cuidado que os egípcios
dedicavam ao vinho é a descoberta feita em 1922 na tumba do jovem
faraó Tutankamon (1.371-1.352 a.C.). Foram encontradas 36 ânforas de
vinho algumas das quais continham inscrições da região, safra, nome
do comerciante e até a inscrição "muito boa qualidade"!
Quando
do surgimento do Egito (por volta de 3.000 a.C.), os precursores dos
gregos ocuparam quatro áreas principais em volta do mar Egeu: o sul e
centro-leste da Grécia, a ilha de Creta, as ilhas Cicládicas no sul do
Egeu e a costa noroeste da Ásia Menor. Nessas regiões foram cultivadas
oliveiras e videiras, duas novas culturas que acrescentaram nova
dimensão à dieta primitiva de milho e carne e que podiam crescer em
terras pobres e pedregosas para o cultivo de grãos. O azeite de oliva e
o vinho foram poderosos estímulos ao comércio e, conseqüentemente, à
troca de idéias. O vinho, em particular, trouxe uma nova dimensão nas
relações pessoais e comerciais, na medida em que leva naturalmente a
festividades, confidencias e senso de oportunidade.
No
ano 2.000 a.C. Creta era desenvolvida, em parte pelo contato com o
Egito, mas por volta de 1.500 a.C. foi superada por Micena, situada no
sul da Grécia, cujo povo era mais agressivo, inclusive como
comerciantes e colonizadores. Os micênios visitaram desde a Sicília,
no oeste, até a Síria, no Leste. Sob liderança de Agamenon,
juntamente com seus vizinhos espartanos sitiaram Tróia. O gosto dos
gregos pelo vinho pode ser avaliado pela descoberta recente da adega do
rei Nestor, de Pilos, cidade da Peloponésia (sul da Grécia). A
capacidade da adega do rei foi estimada em 6.000 litros, armazenados em
grandes jarras denominadas "pithoi". O vinho era levado até a
adega dentro de bolsas de pele de animal que deviam contribuir para a
formação do buquê do vinho.
Na
Ilíada, Homero fala de vinhos e descreve com lirismo a colheita durante
o outono. O poeta também fala de vinhos nas narrativas da guerra de
Tróia e cita a ilha de Lemnos, no mar Egeu, como a fornecedora de vinho
para as tropas que sitiavam Tróia, cujo vinho era proveniente da
Frígia.
Homero
também descreve os vinhos gregos ao narrar as viagens de Odisseu e
entre eles, está o vinho do sacerdote Maro: vinho tinto, com doçura do
mel e tão forte que era diluído com água na proporção de 1-20.
Quando foi aprisionado, na costa da Sicília, pelo ciclope Polifemus,
Odisseu ofereceu-lhe o vinho de Maro como digestivo. Como o ciclone
estava acostumado com o fraco vinho da Sicília, após tomar o vinho
forte caiu em sono profundo, o que permitiu a Odisseu extrair-lhe o
olho.
Entre
1.200 e 1.100 a.C. os dóricos, selvagens vindos do norte, devastaram
Micena e outros impérios do Oriente Próximo, que, exceção feita ao
Egito, caíram nessa época. Foi o período negro da história da
Grécia. Até a arte de escrever foi perdida. Após esse período, os
novos gregos tiveram mais energia e inteligência que os seus
predecessores. Em dois séculos o Mar Egeu tornava-se novamente o centro
das atividades criativas. O alfabeto é adotado e a linguagem escrita
renasce entre 900 e 700 a.C. Nessa época os gregos, incluindo os
refugiados de Micena transformaram as costas da Frígia (terra dos
hititas) e da Lídia na "Grécia Oriental", trazendo sua
agricultura de oliva e uva. Atenas, que não fora inteiramente
destruída pelos dóricos, começava a sua liderança artística e
cultural.
Um
novo período se iniciou e os habitantes da Eubéia, na costa leste da
Grécia Central chegaram a ilha de Chipre e a Al-Mina (na Síria) e
fundaram na Itália as cidades de Cumae e Naxos, esta última na
Sicília. Colonizadores de outras regiões da Grécia cruzaram o mar e
fundaram outras cidades na Itália, como os corintos que fundaram
Siracusa (na Sicília) e os habitantes de Rodes que fundaram Gela (na
Sicília) e Naepolis (hoje Nápoles). Os acênios, do norte da
Peloponésia, fundaram Sybaris e Poseidonia (hoje Paestum) na Campânia.
Os espartanos fundaram Tarentum (hoje Taranto). Os atenienses chegaram
à Lombardia onde fizeram contato com os etruscos.
Deste
modo, a expansão da cultura grega fez com que a Sicília e a
"ponta da bota" da Itália fossem designadas, nessa época,
"a Magna Grécia", também chamada de "Oenotri", a
terra dos vinhos.
Nessa
era de intensa procura por novas terras, ocorreu também a colonização
do sul da França pelos gregos habitantes da Lídia, que fugiam da
invasão dos persas e fundaram Massalia (hoje Marselha) e se
estabeleceram também na Córsega em 500 a.C. Eles controlaram rotas do
Rhône, do Saône, através da Borgonha, do Sena e do Loire. Massalia
fazia seu próprio vinho e as ânforas para exportá-lo. Segundo o
historiador romano Justiniano, "os gauleses aprenderam com os
gregos uma forma civilizada de vida, cultivando olivas e videiras."
Historiadores
acreditam que o primeiro vinho bebido na Borgonha foi provavelmente
trazido de Marsellha ou diretamente da Grécia. É importante lembrar
que em 1952, entre Paris e a Borgonha, na cidade de Vix, foi descoberta
uma imensa jarra grega de fino bronze com cerca de 2 metros de altura e
com capacidade de 1.200 litros originária de 600 a.C.
As
ilhas gregas foram provavelmente os principais exportadoras de vinho,
sendo a ilha de Chios, situada ao leste, próxima ao litoral da Lídia,
a mais importante delas e a que possuía o melhor vinho. As suas
ânforas características foram encontradas em quase todas as regiões
por onde os gregos fizeram comércio, tais como: Egito, França,
Bulgária, Itália e Rússia. Também a ilha de Lesbos, ao norte de
Chios possuía um vinho famoso e, provavelmente, foi a fonte do
Pramnian, o equivalente grego do fantástico vinho búlgaro Tokay
Essenczia.
Provavelmente
havia predileção pelos vinhos doces (Homero descreve uvas secadas ao
sol), mas haviam vários tipos diferentes de vinho. Laerte, o pai de
Odisseu, cujos vinhedos eram seu orgulho e alegria, vangloriava-se de
ter 50 tipos cada um de um tipo diferente de uva. Com relação à
prática de adicionar resina de pinheiro no vinho, utilizada na
elaboração do moderno Retsina, parece que era rara na Grécia Antiga.
No entanto, era comum fazer outras misturas com os vinhos e, na verdade,
raramente eram bebidos puros. Era normal adicionar-se pelo menos água
e, quanto mais formal a ocasião e mais sofisticada a comida, mais
especiarias aromáticas eram adicionadas ao vinho.
O
amor dos gregos pelos vinhos pode ser avaliado pelos
"Simpósios", cujo significado literal é "bebendo
junto". Eram reuniões (daí o significado atual) onde as pessoas
se reuniam para beber vinho em salas especiais, reclinados
confortavelmente em divãs, onde conversas se desenrolavam num ambiente
de alegre convívio. Todo Simpósio tinha um presidente cuja função
era estimular a conversação. Embora muitos Simpósios fossem sérios e
constituídos por homens nobres e sábios, havia outros que se
desenvolviam em clima de festa, com jovens dançarinas ao som de
flautas.
Entre
as muitas evidências da sabedoria grega para o uso do vinho são os
escritos atribuídos a Eubulus por volta de 375 a.C. : "Eu preparo
três taças para o moderado: uma para a saúde, que ele sorverá
primeiro, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono.
Quando essa taça acabou, os convidados sábios vão para casa. A quarta
taça é a menos demorada, mas é a da violência; a quinta é a do
tumulto, a sexta da orgia, a sétima a do olho roxo, a oitava é a do
policial, a nona da ranzinzice e a décima a da loucura e da quebradeira
dos móveis."
O
uso medicinal do vinho era largamente empregado pelos gregos e existem
inúmeros registros disso. Hipócrates fez várias observações sobre
as propriedades medicinais do vinho, que são citadas em textos de
história da medicina.
Além
dos aspectos comercial, medicinal e hedônico o vinho representava para
os gregos um elemento místico, expresso no culto ao deus do vinho,
Dionísio ou Baco ou Líber. Entre as várias lendas que cercam a sua
existência, a mais conhecida é aquela contada na peça de Eurípides.
Dionísio, nascido em Naxos, seria filho de Zeus (Júpiter), o pai dos
deuses, que vivia no Monte Olimpo em Thessaly e da mortal Semele, a
filha de Cadmus, o rei de Tebas. Semele, ainda no sexto mês de
gravidez, morreu fulminada por um raio proveniente da intensa
luminosidade de Zeus. Dionísio foi salvo pelo pai que o retirou do
ventre da mãe e o costurou-o na própria coxa onde foi mantido até o
final da gestação. Dionísio se confunde com vários outros deuses de
várias civilizações, cujos cultos teriam origem há 9.000 anos.
Originalmente, era apenas o deus da vegetação e da fertilidade e
gradualmente foi se tornando o deus do vinho, como Baco deus originário
da Lídia.
O
vinho chegou no sul da Itália através dos gregos a partir de próximo
de 800 a.C. No entanto, os etruscos, já viviam ao norte, na região da
atual Toscana, e elaboravam vinhos e os comercializavam até na Gália
e, provavelmente, na Borgonha. Não se sabe, no entanto se eles
trouxeram as videiras de sua terra de origem (provavelmente da Ásia
Menor ou da Fenícia) ou se cultivaram uvas nativas da Itália, onde já
havia videiras desde a pré-história. Deste modo, não é possível
dizer quem as usou primeiro para a elaboração de vinhos. A mais antiga
ânfora de vinho encontrada na Itália é etrusca e data de 600 a.C.
O
ponto crítico da história do vinho em Roma foi a vitória na longa
guerra com o Império de Cartago no norte da África para controlar o
Mediterrâneo Ocidental entre 264 e 146 a.C. Após as vitórias sobre o
general Aníbal e, a seguir, sobre os macedônios e os Sírios, houve
mudanças importantes.
Os
romanos começaram a investir na agricultura com seriedade e a
vitivinicultura atingiu seu clímax. O primeiro a escrever sobre o tema
foi o senador Catão em sua obra "De Agri Cultura". No
entanto, ironicamente, o mais famoso manual foi escrito por um
cartaginês, Mago, e traduzido para o latim e para o grego. O manual de
Mago, mais do qualquer outro estudo, estimulava a plantação comercial
de vinhedos a substituição de pequenas propriedades por outras
maiores.
Uma
data importante no progresso de Roma foi 171 a.C., quando foi aberta a
primeira padaria da cidade, pois até então os romanos se alimentavam
de mingau de cereais. Agora Roma comia pão e certamente a sede por
vinho iria aumentar. Começava uma nova era e apareciam os
"primeiro-cultivo" vinhos de qualidade de vinhedos
específicos, equivalentes aos "grands crus" de hoje. Na costa
da Campânia, mais exatamente na baía de Nápoles e na península de
Sorriento estavam os melhores vinhedos. Dessa época é o maravilhoso
"Opimiano" (em homenagem ao cônsul Opimius) safra de 121 a.C.
do vinhedo Falernum que foi consumido, conforme registros históricos
até 125 anos depois. Ainda assim, os vinhos gregos ainda eram
considerados pelos romanos os melhores.
No
império de Augusto (276 a.C. - 14 d.C.) a indústria do vinho estava
estabelecida em toda a extensão da Itália que já exportava vinhos
para a Grécia, Macedônia e Dalmácia. Todos os "grands crus"
vinham da região entre Roma e Pompéia, mas a região da costa
adriática era também importante, em especial pelas exportações.
Pompéia ocupava uma posição de destaque, podendo ser considerada a
Bordeaux do Império Romano e era a maior fornecedora de vinhos para
Roma. Após a destruição de Pompéia pela erupção do Vesúvio no ano
79 d.C., ocorreu uma louca corrida na plantação de vinhedos onde quer
que fosse. Plantações de milho tornaram-se vinhedos, provocando um
desequilíbrio do fornecimento a Roma, desvalorização das terras e do
vinho.
No
ano 92 d.C., o imperador Domiciano editou um decreto proibindo a
plantação de novos vinhedos e de vinhedos pequenos e mandando destruir
metade dos vinhedos nas províncias ultramarítimas. O decreto parece
visar a proteção do vinho doméstico contra a competição do vinho
das províncias e manter os preços para o produtor. O decreto
permaneceu até 280 d.C., quando o imperador Probus o revogou.
Tudo
que se queira saber sobre a vitivinicultura romana da época está no
manual "De Re Rústica" (Sobre Temas do Campo), de
aproximadamente 65 d.C, de autoria de um espanhol de Gades (hoje
Cádiz), Lucius Columella. O manual chega a detalhes como: a produção
por área plantada (que, surpreendentemente, é a mesma dos melhores
vinhedos da França de hoje), a técnica de plantio em estacas com
distância de dois passos entre elas (mais ou menos a mesma técnica
usada hoje em vários vinhedos europeus), tipo de terreno, drenagem,
colheita, prensagem, fermentação etc.
Quanto
ao paladar, os romanos tinham predileção pelo vinho doce, daí fazerem
a colheita o mais tardiamente possível, ou, conforme a técnica grega,
colher o fruto um pouco imaturo e deixá-lo no sol para secar e
concentrar o açúcar (vinhos chamados "Passum"). Outro modo
de obter um vinho mais forte e doce era ferver, aumentando a
concentração de açúcar (originando o chamado "Defrutum")
ou ainda adicionar mel (originava o "Mulsum"). Preparavam
também o "semper mustum" (mosto permanente), um mosto cuja
fermentação era interrompida por submersão da ânfora em água fria
e, portanto, contendo mais açúcar. Esse método é o precursor do
método de obtenção do "Süssreserve" das vinícolas
alemãs.
Ainda
no tocante ao paladar, é interessante lembrar que os romanos sempre
tiveram predileção por temperos fortes na comida e também se excediam
nas misturas com vinhos que eram fervidos em infusões ou macerações
com ervas, especiarias, resinas e denominados "vinhos gregos"
em virtude dos gregos raramente tomarem vinhos sem temperá-los.
Plínio, Columella e Apícius descrevem receitas bastante exóticas.
Quanto
a idade, alguns vinhos romanos se prestavam ao envelhecimento, os fortes
e doces expostos ao ar livre e os mais fracos contidos em jarras
enterrados no chão. Um recurso usado para envelhecer o vinho era o
"fumarium", um quarto de defumação onde as ânforas com
vinho eram colocadas em cima de uma lareira e o vinho defumado,
tornando-se mais pálido, mais ácido e com cheiro de fumaça.
Galeno
(131-201 d.C.), o famoso grego médico dos gladiadores e, posteriormente
médico particular do imperador Marco Aurélio, escreveu um tratado
denominado "De antídotos" sobre o uso de preparações à
base de vinho e ervas, usadas como antídotos de venenos. Nesse tratado
existem considerações perfeitas sobre os vinhos, tanto italianos como
gregos, bebidos em Roma nessa época: como deveriam ser analisados,
guardados e envelhecidos.
A
maneira de Galeno escolher o melhor era começar com vinhos de 20 anos,
que se esperava serem amargos, e, então, provar as safras mais novas
até chegar-se ao vinho mais velho sem amargor. Segundo Galeno, o vinho
"Falerniano" era ainda nessa época o melhor (tão famoso que
era falsificado com freqüência) e o "Surrentino" o igualava
em qualidade, embora mais duro e mais austero. A palavra
"austero" é usada inúmeras vezes nas descrições de Galeno
para a escolha dos vinhos e indica que o gosto de Roma estava se
afastando dos vinhos espessos e doces que faziam da Campânia a mais
prestigiada região. Os vinhedos próximos a Roma, que anteriormente
eram desprestigiados por causa de seu vinhos ásperos e ácidos, estavam
entre os preferidos de Galeno. Ele descreveu os "grands crus"
romanos, todos brancos, como fluídos, mas fortes e levemente
adstringentes, variando entre encorpados e leves. Parece que o vinho
tinto era a bebida do dia a dia nas tavernas.
Depois
de Galeno não existem registros da evolução do paladar de Roma em
relação aos vinhos. Certamente havia mercado para todos os gostos
nessa metrópole que nessa época era a maior cidade do mundo
Mediterrâneo e já possuía mais de um milhão de habitantes! É claro
que a maior demanda era para o vinho barato que geralmente vinha de fora
da península. É interessante notar que, desde a época de Galeno, o
vinho da Espanha e da Gália começava a chegar em Roma. Um dos efeitos
da expansão dos vinhedos nas províncias é que a produção em massa
em regiões da Itália que abasteciam Roma tornou-se menos lucrativa e
muitos vinhedos tornaram-se passatempo de nobres. Um desincentivo aos
produtores italianos foi a criação, por volta de 250 d.C., de um
imposto que consistia em entregarem uma parte do vinho produzido ao
governo (para as rações do exército e para distribuição à ralé
que tinha a bebida subsidiada). Talvez para remediar esta situação, em
280 d.C. , o imperador Probus, revogou o já mencionado decreto editado
(e amplamente ignorado!) por Domiciano em 92 d.C., proibindo o plantio
de vinhedos. Probus inclusive colocou o exército para trabalhar no
cultivo de novos vinhedos na Gália e ao longo do Danúbio. No entanto,
foi inútil, pois o declínio do Império Romano estava começando.
Sobre
a origem da vitivinicultura na França existe um verdadeira batalha
entre os historiadores. Há os que acreditam nos registros dos Romanos e
outros acham que os predecessores dos Celtas estabeleceram a
elaboração de vinhos na França. Há ainda os que acreditam que os
franceses da idade da pedra eram vinhateiros, pois no lago de Genebra
foram encontradas sementes de uvas selvagens que indicam o seu uso há
12.000 anos ou mais. Segundo a "Escola Celta" os
empreendimentos do ocidente são ignorados por não terem registros
escritos. Os celtas da Gália foram ativos e agressivos. Eles dominaram
quase toda a região dos Alpes, na época em que os atenienses dominavam
a Grécia, invadindo a Lombardia na Itália (onde fundaram Milão) e
alcançando Roma, chegaram à Ásia Menor, penetrando na Macedônia e
alcançaram Delphi e fundaram um acampamento no Danúbio, em Belgrado.
Os
gauleses antigos já tinham contato com os vinhos do Mediterrâneos por
longo tempo e, como já foi dito, os gregos haviam fundado Marselha em
600 a.C., elaborando e comercializando vinhos com os nativos. Os celtas
do interior da Gália ainda não tinham alcançado o sul da França
nessa época; ali habitavam os ibéricos do norte da Itália e da
Espanha. Se havia vinhedos celtas na Gália eles não chegaram ao
mediterrâneo. É difícil acreditar que na França havia vinhedos, pois
os chefes gaulêses pagavam um preço exorbitante pelos vinhos aos
comerciantes romanos: um escravo por uma ânfora de vinho, isto é,
trocavam o copo pelo copeiro. Marselha tornou-se parte do Império
Romano por volta de 125 a.C., mas continuava sendo considerada uma
cidade grega.
A
primeira verdadeira colônia romana na França foi fundada anos mais
tarde na costa a oeste em Narbo (hoje Narbonne) que se tornou a capital
da província de Narbonensis e, de fato, de toda a chamada "Gália
Transalpina". Com ponto de partida na Provence, os romanos subiram
o vale do Rhône e mais tarde no reinado de César dirigiram-se a oeste
e chegaram na região de Bordeaux. Bordeaux, Borgonha e Tréveris
provavelmente surgiram como centros de importação de vinho, plantando
a seguir as suas próprias videiras e obtendo vinhos que superaram os
importados. No século II havia vinhedos na Borgonha; no século III, no
vale do Loire; no século IV, nas regiões de Paris, Champagne, Mosela e
Reno. Os vinhedos da Alsácia não tiveram origem romana e só surgiram
no século IX.
Após
a queda do Império Romano seguiu-se uma época de obscuridade em
praticamente todas as áreas da criatividade humana e os vinhedos
parecem ter permanecido em latência até que alguém os fizesse
renascer.
Chegamos
à Idade Média, época em que a Igreja Católica passa a ser a
detentora das verdades humanas e divinas. Felizmente, o simbolismo do
vinho na liturgia católica faz com que a Igreja desempenhe, nessa
época, o papel mais importante do renascimento, desenvolvimento e
aprimoramento dos vinhedos e do vinho. Assim, nos séculos que se
seguiram, a Igreja foi proprietária de inúmeros vinhedos nos mosteiros
das principais ordens religiosas da época, como os franciscanos,
beneditinos e cistercienses (ordem de São Bernardo), que se espalharam
por toda Europa, levando consigo a sabedoria da elaboração do vinho.
Dessa
época são importantes três mosteiros franceses. Dois situam-se na
Borgonha: um beneditino em Cluny, próximo de Mâcon (fundado em 529) e
um cisterciense em Citeaux, próximo de Beaunne (fundado em 1098). O
terceiro, cisterciense, está em Clairvaux na região de Champagne.
Também famoso é o mosteiro cisterciense de Eberbach, na região do
Rheingau, na Alemanha. Esse mosteiro, construído em 1136 por 12 monges
de Clairvaux, enviados por São Bernado, foi o maior estabelecimento
vinícola do mundo durante os séculos XII e XIII e hoje abriga um
excelente vinhedo estatal.
Os
hospitais também foram centros de produção e distribuição de vinhos
e, à época, cuidavam não apenas dos doentes, mas também recebiam
pobres, viajantes, estudantes e peregrinos. Um dos mais famosos é o
Hôtel-Dieu ou Hospice de Beaune, fundado em 1443, até hoje mantido
pelas vendas de vinho.
Também
as universidades tiveram seu papel na divulgação e no consumo do vinho
durante a Idade Média. Numa forma primitiva de turismo, iniciada pela
Universidade de Paris e propagada pela Europa, os estudantes recebiam
salvo conduto e ajuda de custos para viagens de intercâmbio cultural
com outras universidades. Curiosamente, os estudantes andarilhos
gastavam mais tempo em tavernas do que em salas de aulas e, embora
cultos, estavam mais interessados em mulheres, músicas e vinhos. Eles
se denominavam a "Ordem dos Goliardos" e, conheciam, mais do
que ninguém, os vinhos de toda a Europa.
É
interessante observar que é da idade média, por volta do ano de 1.300,
o primeiro livro impresso sobre o vinho: "Liber de Vinis".
Escrito pelo espanhol ou catalão Arnaldus de Villanova, médico e
professor da Universidade de Montpellier, o livro continha uma visão
médica do vinho, provavelmente a primeira desde a escrita por Galeno. O
livro cita as propriedades curativas de vinhos aromatizados com ervas em
uma infinidade de doenças. Entre eles, o vinho aromatizado com arlequim
teria "qualidades maravilhosas" tais como: "restabelecer
o apetite e as energias, exaltar a alma, embelezar a face, promover o
crescimento dos cabelos, limpar os dentes e manter a pessoa jovem".
O autor também descreve aspectos interessantes como o costume
fraudulento dos comerciantes oferecerem aos fregueses alcaçuz, nozes ou
queijos salgados, antes que eles provassem seus vinhos, de modo a não
perceberem o seu amargor e a acidez. Recomendava que os degustadores
"poderiam safar-se de tal engodo degustando os vinhos pela manhã,
após terem lavado a boca e comido algumas nacos de pão umedecidos em
água, pois com o estômago totalmente vazio ou muito cheio estraga o
paladar ". Arnaldus Villanova, falecido em 1311, era uma figura
polêmica e acreditava na segunda vinda do Messias no ano de 1378, o que
lhe valeu uma longa rixa com os monges dominicanos que acabaram por
queimar seu livro.
Da
Europa, através das expedições colonizadoras, as vinhas chegaram a
outros continentes, se aclimataram e passaram a fornecer bons vinhos,
especialmente nas Américas do Norte (Estados Unidos) e do Sul
(Argentina, Chile e Brasil) e na África (África do Sul). A uva foi
trazida para as Américas por Cristóvão Colombo, na sua segunda viagem
às Antilhas em 1493, e se espalhou, a seguir, para o México e sul dos
Estados Unidos e às colônias espanholas da América do Sul. As
videiras foram trazidas da Ilha da Madeira ao Brasil em 1532 por Martim
Afonso de Souza e plantadas por Brás Cubas, inicialmente no litoral
paulista e depois, em 1551, na região de Tatuapé.
É
importante mencionar um fato importantíssimo e trágico na história da
vitivinicultura, ocorrido da segunda metade do século passado, em
especial na década de 1870, até o início deste século. Trata-se de
uma doença parasitária das vinhas, provocada pelo inseto Phylloxera
vastatrix, cuja larva ataca as raízes. A Phylloxera,
trazida à Europa em vinhas americanas contaminadas, destruiu
praticamente todas as videiras européias. A salvação para o grande
mal foi a descoberta de que as raízes das videiras americanas eram
resistentes ao inseto e passaram a ser usadas como porta-enxerto para
vinhas européias. Desse modo, as videiras americanas foram o remédio
para a desgraça que elas próprias causaram às vitis
européias.
Finalmente,
é imprescindível lembrarmos as descobertas sobre os microorganismos e
a fermentação feitas por Louis de Pasteur (1822-1895) e publicadas na
sua obra "Études sur le Vin". Essas descobertas constituem o
marco fundamental para o desenvolvimento da enologia moderna.
A
partir do século XX a elaboração dos vinhos tomou novos rumos com o
desenvolvimento tecnológico na viticultura e da enologia, propiciando
conquistas tais como o cruzamento genético de diferentes cepas de uvas
e o desenvolvimento de cepas de leveduras selecionadas geneticamente, a
colheita mecanizada, a fermentação "a frio" na elaboração
dos vinhos brancos etc. Ainda que pese o romantismo de muitos que
consideram (ou supõem?) os vinhos dos séculos passados como mais
artesanais, os vinhos deste século têm, certamente, um nível de
qualidade bem melhor do que os de épocas passadas. Na verdade algumas
conquistas tecnológicas, como as substituições da rolha e da cápsula
por artefatos de plástico e da garrafa por caixinhas do tipo
"tetra brik" são de indiscutível mau gosto e irritam os
amantes do vinho.
Resta-nos
esperar que os vinhos dos séculos vindouros melhorem ou, pelo menos,
mantenham o nível de qualidade sem perder o charme dos grandes vinhos
do século XX !
(Extraído
em sua maior parte da obra de Hugh Johnson "The Story of Wine"
da editora Mitchell-Beazley, Londres, 1989)
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